quinta-feira, 4 de abril de 2013

Anencéfalos (Caio S.C.)


    Era novamente uma era negra. Uma incrível depressão arrastava o mundo.
A crise de 29 era fichinha perto disso. Quando não temos dinheiro, ficamos triste, mas quando não podemos ter filhos, a tristeza é bem maior.
Algo havia modificado a humanidade que gradativamente diminuía em Humanidade e população. Talvez fosse toda aquela  comida industrializadas de anos e anos dos quais nossa gente se alimentou. Do veneno no ar que respirávamos, ou das radiações que se propagavam em nossos corpos, vindos de todos os cantos.  
   Aquilo era terrível, profundamente triste, aquele vazio que ficava em nossos corações poderia ser dito similar ao vazio que era a cabeça de nossas crianças. Sim, nossas crianças nasciam sem cérebro, anencéfalos. E isso era algo sem remediação. Se fosse necessário trocar um coração doente, podia ser feito através do modo antigo ou da implementação de órgãos biomecânicos. Mas um cérebro... creio que seria muito difícil. Nem nossos computadores mais avançados podiam chegar ao nível de um cérebro humano. Podíamos ter problemas para lembrar-se de coisas, ou processar cálculos com certa imprecisão durante dias conturbados seguidos de noites mal dormidas. Mas jamais um cérebro chegaria perto de nosso processamento natural. E creio eu que até mesmo no cérebro, havia algo meta físico, uma porta para um mundo interior. Do qual, agora, nossas crianças nasciam desprovidas.
   Depois da primeira grande onda do repetido caso no mundo, muitas mulheres já estavam sem esperança. O pensamento de viver sem casamento já era forte, agora, com a possibilidade de não ter filhos da forma tradicional e com nascimentos “normais”, elas eram mais frias. Vivendo cegamente pelo prazer, praticando orgias, e no final da noitada, após chegar em casa e ouvir o eco de sua frieza interna bater nas paredes sem vida de suas casa solitárias, choravam, tudo era escuro e triste, frio e úmido, perante o silencio vindo da morte, da vida que não vinha, da alegria que não podia nascer.
   Os homens perderam suas forças. Aqueles que almejavam uma família perfeita decaíram. Esses homens eram cinza, pálidos, pois até os céus eram escuros em nossa época. Não havia mais sentido na existência, o pessimismo já havia tomado todo o coração do homem que ouvia a frase: “querido, estou grávida”. O medo de não ver a criança nascer, ou de nascer e nem ao menos poder pensar, entender, aprender com seu pai, fazia do homem um humanoide de área movediça onde seu coração, era um buraco negro da entropia existencial.
   Não poder passar a vida a frente, não ter a quem ensinar algo antigo, não ter um novo alguém com quem aprender algo novo, um pedaço livre de você para amar, era nisso que se baseava a vida em nossa época, tristeza.
   Não sabíamos como começou, não conseguíamos retroceder o processo. Nossa gente desmoronava de seus castelos de ego, somente havia a queda, a única direção que nossa gente conhecia, para baixo.
As pessoas impotentes cansavam-se da luxuria sem fim, da eternidade biomecânica, do grande vazio do nunca morrer, e agora, também do vazio da nova geração que não viria.
   Nossos antepassados não fizeram bom uso de seus cérebros, criaram guerras, se guiaram por razões erradas. Talvez tenha sido um castigo divino pelo mal uso. Se nossas crianças nascessem sem coração, o castigo também faria sentido. Nos humanos, não exploramos nossa essência. Não éramos mais animais, muito menos seres espirituais, nem mesmo os Deuses imortais que deveríamos ser, nós nos tornamos nada. Como poeira ao vento, algo que ninguém sente saudade.
   Como eu disse, éramos pessoas tristes, e assim morreu nossa raça, num almejo da eternidade, morremos tristes e sós.


(Caio S.C.)

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