sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Paima e os analistas. #1 (Caio S.C.)


“Filho lembre-se que para tudo existe uma variante, às vezes as personalidades das pessoas são modificadas. É como o ferro, malhado quente ou frio, com força, se destorce.”
 Arfh- era o som da minha garganta, pigarreando – Glub – e agora minha garganta engolindo saliva. Estranho quando do nada você pensa que não engole sua saliva a décadas, depois de tanto tempo calado. Que horas? Vejamos – olho no relógio – 12h37min, hm, até lembrei que estou com fome. Ajeito meu bloquinho de notas por cima da mochila cheia de bugigangas, um monte de porcarias inúteis uteis, que nunca se sabe quando se ira precisar, tipo nunca.
Olho pra garota que se encontra a 11h, esse é o sistema de coordenada náutica, creio eu, ela esta na minha frente e a esquerda, pronto. Pelos seus olhos, ela é observadora, vou tomar cuidado pra que não perceba que a olhei – olho pra fora do ônibus, avisto uma igreja, umas senhoras passando, um boteco, outra igreja, umas casas, uns botecos, umas igrejas – esquece olhar pra fora, foco nela novamente – hm – vish, pensei meio alto, o senhor do lado deve ter ouvido, tanto faz, ele resmunga tanto quanto eu. O nariz, vejamos, é daqueles curvados pra dentro, ela segue seu instinto, boa intuição, será que ela sabe que pretendo falar com ela?! – Glub  ­– denovo?! Caramba, parece que não vejo água a dias, porem, inconscientemente isso é uma emoção que estou tentado não lembrar, nem lembra nem sentir, esqueça ela, “esqueça aquela vaca” é o que as Carol disse, não importa, “Me esqueça!” vou o que aquela ordinária falou. Vai ver é pra esquecê-la mesmo, melhor assim.
– Glub – Mas que diabos, pare já com isso! Volte para seu momento de analise!
A testa dela, é meio ampla sim, sim, exatamente, ela é inteligente, ótimo, não  gosto de garota burra, as burras sempre me trocam por... tipo aquela... vadia! Esquece, foi! Para ser superior, desejo o melhor de tudo pra ela... isso não foi sincero, com certeza. Vou só seguir meu caminho, meu, do ônibus, e de todas essas 30 pessoas no mesmo.
As orelhas dela têm um formato meio circular, não lembro direito, vejamos no bloco! – Viro as páginas até chegar na letra “O” – Olhos, Orelhas! Hm, ela gosta de boa música, ótimo, somos dois. Ei, essa garota ta pra mim! Se ela descer no meu ponto, sou obrigado a ir falar com ela. Mas antes, mais analise!
Lábios, que formato, quanta carne, perfeito. Tem aquele desenho no lábio superior, o que eu acho que é de gente que sabe falar... aquelas coisas... Oh, o sinal, ela vai descer, é só dois pontos antes do meu, Oh vizinha, chega mais! – Coloque o bloquinho na mochila – olhei pro senhor e disse: Ei senhor, ah... com licença. – Ele deu aquela viradinha tão sutil quanto o buraco da cabeça de um alfinete, e passei.
Ela desceu, uma senhorita desceu também, eu desci, sou um cavalheiro, elas sobem e descem primeiro. Segui, ela estava uns 7 ou 10 passos a frente, dei uma corridinha, e fui falar com ela, segui umas regras básicas passadas de pai pra filho, um código de conduta, honra, e o que chamamos de “poderes extra-naturais”.
O lance com ela foi bom, mas foi simplesmente pelo meu jeito da abordagem, por que não vi tanta sensibilidade onde via sensualidade. Ela falou demasiadamente sobre coisas matérias, poxa, esse ferro foi malhado a base de ouro!  E sim, eu não posso bancá-la, e nem gostaria, dinheiro não traz amor, mas com amor se faz dinheiro.  E naquela noite, relatei isso ao Pai, Mestre em Analise Antropológica, e um diabo a quatro sobre psicologia e o raio todo. Por isso o chamo de “Paima”, ou só mestre, de vez em quando.
–Filho, o cabelo dela, como era?
–Não reparei, acho que era meio longo.
–Não falo disso, digo se era fino ou grosso!
–Ah, acho poderia se encaixar em... fio grosso, indubitavelmente não era fino.
–Você leu o bloquinho inteiro?
–Não...
–Então, fios grossos podem significar apego material, mas lembre-se, algum dia você pode encontrar uma garota de cabelo parecido, mas, existem sempre variáveis. Cheque sempre duas vezes.
É, tenho muito a prender ainda. Mas não é por isso que vou parar de tentar. Porque sempre me lembro que se deve procurar sempre aprender, independente do que, pois nunca se sabe.



Paima e os analistas é uma serie de crônicas, com a possibilidade de não ter tanto sentido superficial. Mas o importante é pelo menos estar fazendo.
Obrigado.

Um comentário:

  1. Gostei do tema e do rítmo colocado aqui. É um texto diferente e a proposta pode gerar muita coisa.
    As sensações do personagem e pensamentos foram bem abordados também.
    Gostei.

    OBS: Porque Carol? ¬¬ Eu gosto do meu nome, mesmo eu não sendo a única que o possui.

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